22.8.19

X

O teu sorriso transforma-se num sótão na penumbra da luz que entra por um pequeno postigo poeirento, onde me perco por horas a fio à procura de um tesouro escondido desconhecendo que o verdadeiro tesouro está ali à minha frente e dentro de mim: a procura, a magia, o segredo, a suspensão do tempo. Ali permaneço nesta cela de contemplação de uma impossibilidade e memória perdida, confundida talvez com um sonho de sol ou delírio de uma noite em que os nossos corpos se elevaram ao pináculo do desejo e do êxtase da intemporalidade, de um agora sem amanhã.

10.8.19

IX

Como extrair a realidade
Da irrealidade
Quando o reflexo da tua própria sombra
é um espelho rachado em mil pedacinhos?
Por momentos és Ulisses
Na mais solitária viagem
Num vasto e inóspito oceano de loucura e delírio.
Regressarás
Às margens do teu ser,
Náufrago da tua dignidade.
Ali permanecerás
na tua ilhota de memórias solarengas
até que um dia
sentirás uma brisa
na tua face intocada
Pelo tempo.

31.7.19

VIII






















A montanha mágica ergue-se
Na minha infância.
Percorri o trilho feito de terra e sonhos,
Virgem e ladeado de fetos
Com o olhar preso num horizonte invisível.
O tempo tornou-se uma abstracção
(Como sempre o foi!)
O passado tornou-se presente,
O futuro escapa-se pelos meus dedos
Como areia primordial
Numa ampulheta dourada e eterna
Gaiola onde todos esvoaçamos
Caoticamente.


Neste trilho de terra e sonhos,
Espiral sem fundo
Onde meus olhos
Se tornam um espelho
do exterior para o interior
Trago a Montanha Mágica
Dentro de mim
Tatuada na matéria visceral
E nos sonhos de fogo e terra.

10.11.17

VII

A memória esqueceu-se de mim

Estou preso numa corrente de palavras que, como a explosão de uma supernova ou o delírio de um moribundo nas horas crepusculares, se misturam e reviram num movimento caótico e incontrolável. Fecho os olhos e tento agarrar uma a uma. Não consigo. Tento então flutuar por entre as imagens que se reviram ao sabor do vento.

5.10.17

VI

Pára, pára, peço perdão, ponho as minhas rótulas no chão remendado de buracos e ferrugem, pára! Sou apenas água, merda e pasto de pensamentos afiados que se evaporam nas penumbras de todos os nadas que acumulo entre dois olhares ou um apertar de mãos em torno de um pescoço alheio. Não sei distinguir a tristeza de um encolher de ombros.

2.2.11


"If someone told me that I could live my life again free of depression provided I was willing to give up the gifts depression has given me--the depth of awareness, the expanded consciousness, the increased sensitivity, the awareness of limitation, the tenderness of love, the meaning of friendship, the apreciation of life, the joy of a passionate heart--I would say, 'This is a Faustian bargain! Give me my depressions. Let the darkness descend. But do not take away the gifts that depression, with the help of some unseen hand, has dredged up from the deep ocean of my soul and strewn along the shores of my life. I can endure darkness if I must; but I cannot live without these gifts. I cannot live without my soul."


David N. Elkins, Beyond Religion

28.12.09

Coincidências



"O meu amigo acreditava na Humanidade, portanto acreditava na ordem (..). No fundo, até é possível que acreditasse no progresso. A coincidência, pelo contrário, é a liberdade total a que estamos condenados pela nossa própria natureza. A coincidência não obedece a leis e se lhes obedece nós desconhecemo-las. A coincidência, se me permite a comparação, é como Deus que se manifesta em cada segundo no nosso planeta. Um Deus incompreensível com gestos incompreensíveis dirigidos às suas criaturas incompreensíveis. Nesse furacão, nessa implosão óssea, realiza-se a comunhão. A comunhão da coincidência com os seus rastos e a comunhão dos seus rastos connosco."

Roberto Bolaño

20.12.08

A nostalgia do som.



Apercebi-me ao longo dos últimos anos que, como qualquer ser humano, julgo, criei na minha memória um tupperware, onde armazenei um pequeno leque de sons associados, subconscientemente, a sentimentos e emoções que se perpetuaram desde o momento primordial, graças a esta mesma associação. Acima de tudo a nostalgia é o sentimento que acompanha todos eles, sendo que todos se remontam à minha infância.
Nas noites do meu passado, deitado na minha cama, acordado ainda, recordo-me principalmente do som de um pastor alemão a ladrar na solidão canina das estrelas. É talvez estranho, pensam porventura, estar a especificar desta maneira o ladrar, mas julgo que seria mesmo um pastor alemão e que este apresenta um ladrar característico, aquele, naquelas mesmas condições. Relacionado também com estes momentos, outro som de que me recordo é o de uma motorizada de grande potência a percorrer a estrada nacional, relativamente perto de minha casa. Ambos os sons, o ladrar e o da motorizada, provocaram-me desde então um enorme sentimento de solidão, uma solidão tranquila e contemplativa.
Numa perspectiva algo diferente desta primeira, durante as minhas sestas estivais, ouvia o som do motor de um aparelho, que um vizinho meu possuía para, julgo, sulfatar as suas videiras. Este som e o do motor de uma avioneta que percorria o espaço aéreo sobre a minha zona, aquecem-me e trazem-me à memória a luz abrasadora do sol a percorrer as frinchas dos estores corridos do meu quarto e a tranquilidade soporífera em que me encontrava naqueles momentos.
Por fim, num contexto e espaço diferentes, em casa dos meus avós, numa zona de algum tráfego rodoviário, ouvi várias vezes e guardei o som de um autocarro a travar, característico e intraduzivel por palavras, e consequentemente o movimento de vaivém das pessoas. Este para mim é o som da Viagem, da partida e da chegada, da descoberta e do adeus. Algo que, mais tarde, quando li o On the Road, compreendi ainda melhor.
Acima de tudo estes sons são símbolos para mim, símbolos do rasto que deixei para trás e da minha própria identidade.

on Aphex Twin - Rhubarb

16.12.07

V


saltitou com duas pernas de carne e abismos com a luz de velas avermelhadas do pôr-do-sol escondido no armário de uma infância. não caminhava, nem vagueava, apenas não conseguia seguir com certeza o que um dia considerou ser a sua velhice, o seu apagar das tempestades caóticas e dignas de veneração a que assistiu passivamente e com escárnio na sua cadeira de indiferença. agora sim, lambia as pontas soltas do seu novelo de tardes passadas a contar anéis formados nas águas de amoníaco onde cuspiu pedras ou impulsos e trilhos de coágulos, ao longe o horizonte que, escurecido e de onde aves migratórias fugiam, ofuscava o seu olhar, que na verdade nem olhar seria, pois as suas pálpebras estavam unidas e não mais se separariam. assim parou e esperou, num coma expectante.

30.11.07

IV


não me sentei, envolto em sôfrega geada e rochedos cobertos de crostas de musgo, para ver o sol nascer. vim para observar a metamorfose matizada no céu, captar, por elaborados mecanismos de paixão e humilde entrega, estas composições espectrais na minha mente, esboçar um itinerário, uma espécie de catecismo para, um dia, repercurti-lo em cada grão de poeira, prole terminal dos meus ossos ... porquê ? não me será permitido libertar o eco do meu nada, espalhando-se impetuosamente pelas encostas das montanhas com que um dia eu sonhei ? um eco da cor do crepúsculo, a simbolizar a relação estreita entre o nascimento e a morte, por entre fragmentos de granito e arbustos silvestres, osso e pele das montanhas ... a estação terminal.

será até belo, num solitário ocaso outonal, observar as minhas ruínas côr-de-crepúsculo.