20.12.08

A nostalgia do som.



Apercebi-me ao longo dos últimos anos que, como qualquer ser humano, julgo, criei na minha memória um tupperware, onde armazenei um pequeno leque de sons associados, subconscientemente, a sentimentos e emoções que se perpetuaram desde o momento primordial, graças a esta mesma associação. Acima de tudo a nostalgia é o sentimento que acompanha todos eles, sendo que todos se remontam à minha infância.
Nas noites do meu passado, deitado na minha cama, acordado ainda, recordo-me principalmente do som de um pastor alemão a ladrar na solidão canina das estrelas. É talvez estranho, pensam porventura, estar a especificar desta maneira o ladrar, mas julgo que seria mesmo um pastor alemão e que este apresenta um ladrar característico, aquele, naquelas mesmas condições. Relacionado também com estes momentos, outro som de que me recordo é o de uma motorizada de grande potência a percorrer a estrada nacional, relativamente perto de minha casa. Ambos os sons, o ladrar e o da motorizada, provocaram-me desde então um enorme sentimento de solidão, uma solidão tranquila e contemplativa.
Numa perspectiva algo diferente desta primeira, durante as minhas sestas estivais, ouvia o som do motor de um aparelho, que um vizinho meu possuía para, julgo, sulfatar as suas videiras. Este som e o do motor de uma avioneta que percorria o espaço aéreo sobre a minha zona, aquecem-me e trazem-me à memória a luz abrasadora do sol a percorrer as frinchas dos estores corridos do meu quarto e a tranquilidade soporífera em que me encontrava naqueles momentos.
Por fim, num contexto e espaço diferentes, em casa dos meus avós, numa zona de algum tráfego rodoviário, ouvi várias vezes e guardei o som de um autocarro a travar, característico e intraduzivel por palavras, e consequentemente o movimento de vaivém das pessoas. Este para mim é o som da Viagem, da partida e da chegada, da descoberta e do adeus. Algo que, mais tarde, quando li o On the Road, compreendi ainda melhor.
Acima de tudo estes sons são símbolos para mim, símbolos do rasto que deixei para trás e da minha própria identidade.

on Aphex Twin - Rhubarb